Dicas de quem faz – Brasil

RAONI CARNEIRO DICAS DE QUEM FAZ FOTO

Raoni Carneiro: o papel do diretor nas produções musicais

Raoni Carneiro iniciou sua carreira durante a adolescência como ator em peças de teatro e em 2002 entrou para o elenco do seriado Sandy & Junior. Aos poucos foi construindo uma carreira sólida dentro da Rede Globo, trabalhando inicialmente como ator e mais tarde como diretor de novelas e de programas musicais, como o especial do Roberto Carlos no final do ano passado. Também músico, e dono de sua própria produtora, a Ayó Filmes, Raoni foi responsável pela direção do primeiro DVD da Anitta, lançado em 2014, e este ano assumiu o comando da transmissão de grandes festivais e eventos como o Show da Virada, Lollapalooza e o Carnaval no sambódromo de São Paulo para a Rede Globo. A Sound on Sound falou com o Raoni sobre o papel do diretor nas grandes produções musicais, tanto nas telas quanto nos palcos, dentro e fora do Brasil.

 

SOS: Para começar, você pode explicar qual é o papel do diretor artístico?

Raoni: Num espetáculo musical, o diretor artístico é a figura que conduz o público. O diretor artístico cria o sentimento da narrativa. Ele está a serviço do público e não pode se divertir mais do que o público. Quem vive num mundo de arte sabe que, dentro de uma equipe, todos os profissionais tem seus valores agregados. Não são apenas executores. São criativos. Minha função como diretor artístico é “direcionar” para onde as ideias vão para que no final todos estejam jogando o mesmo jogo com o mesmo objetivo.

 

SOS: Você foi para os EUA estudar o mercado de entretenimento. Qual é a principal diferença entre a produção de um grande show lá nos EUA e aqui no Brasil?

Raoni: Lá fora o foco é em organização e planejamento. Há uma necessidade de sempre ter um plano B na manga. Erros acontecem, mas são menores e mais contornáveis quando planejamos bem. Aprendi com a minha experiência no exterior e como diretor de teatro que o ensaio e o trabalho de mesa são fundamentais. Para dar um exemplo, o planejamento do DVD do Capital Inicial, que será gravado em Nova York em junho de 2015, foi iniciado em janeiro.

 

SOS: As técnicas de produção usadas lá fora servem para o público brasileiro? As diferenças culturais refletem na produção?

Raoni: Servem para o público brasileiro, sim. Vide os números das bilheterias que o mercado americano arrecada no Brasil. A produção não deve ser diferenciada, se não nós não consumiríamos tanto. Na questão áudio, tem o fator da língua inglesa ser totalmente sonora. O português é mais suingado. Isso leva a gente para outra referência e serve para nosso entretenimento. Mas as relações e conflitos humanos serão sempre os mesmos. E o encanto pelo abstrato é eterno. Então temos que levar para o público esse lugar único: o universo do artista.

 

SOS: Seu trabalho como músico e diretor de teatro acabou ajudando na hora de conseguir o papel de diretor no primeiro DVD da Anitta. Como foi essa história?

 Raoni: Eu já circulava pelo meio das gravadoras. O segundo disco da minha banda, a Trupe, foi lançado pela Sony. Também dirigia teatro há bastante tempo. Acabei sendo convidado para dirigir o DVD do Leandro da Sapucahy. O Bruno Azevedo, dono da Libertà – escritório de empresariamento artístico e empresário do Leandro Sapucahy na época – convidou os empresários da Anitta para ver a gravação e logo depois me chamaram para trabalhar com eles. A Anitta estava em um momento especial da carreira dela, tinha visibilidade total. Conversamos bastante e decidimos fazer um show como se fosse um teatro musical com todos os recursos – foi uma super produção.

 

SOS: Depois do DVD da Anitta, você teve uma grande missão que foi dirigir junto com o Mário Meirelles e o diretor geral, Luiz Gleiser, o especial do Roberto Carlos na Rede Globo. Quais foram os principais desafios desse show?

 Raoni: Trabalhar na Globo e com esses diretores é como dirigir um Boeing. A tecnologia, a organização e o volume de trabalho impressionam. E o Roberto Carlos é fantástico, é o Rei.

 

SOS: Como você consegue estabelecer uma relação de confiança com artistas consagrados? Você é jovem, tem poucos anos de carreira como diretor e a responsabilidade é grande.

Raoni: O fato de ser artista ajuda. Entendo o que eles querem. Eles sobem no palco e tento sempre mostrar para eles que eu também sei dessa importância. Com isso a confiança vem junto. Eles sabem que não estou de brincadeira e que levo muito a sério o que faço. E lógico, projeto tudo pra que eles subam no palco do jeito que eu gostaria de subir.

 

SOS: Recentemente você foi um dos responsáveis pela direção da transmissão do Carnaval de São Paulo para a Rede Globo. Como foi esse trabalho?

Raoni: Desafiador. O Carnaval é muito grande. Envolve muita gente que trabalha o ano inteiro para esse momento. Tem que ter atenção e respeito. Tinha comigo diretores experientes e aprendi muito. Como sempre digo, somos uma engrenagem no meio de uma estrutura e ela tem que andar. São muitas as responsabilidades.

 

SOS: Comente um pouco sobre as diferenças de narrativa do show do Roberto Carlos, do DVD da Anitta, dos desfiles de Carnaval, do festival Lollapalooza e do show do Capital Inicial que você vai gravar em Nova York.

Raoni: Não sei se consigo te explicar, mas cada artista tem seu DNA, cada projeto tem sua pulsação. A narrativa se torna natural, desde que mergulhemos no universo que estamos estudando. E quando se mergulha num universo, descobre que ele é infinito.

 

Não quero ficar conhecido como diretor de um estilo só. Por isso gosto de passear pelo samba, funk, rock, pop e MPB. Gosto do meu oficio, e minha missão é poder transpor para o publico o universo de cada artista. Não os rotulo e se estão ali é porque o público deles esta consumindo e os tornando grandes para eles. Mergulho nesse universo e tento mostrar esse universo da melhor maneira possível. Mas a parceria com o artista é muito importante.

 

SOS: Além de ser diretor artístico dos shows, você é o diretor de vídeo. Qual é a vantagem de exercer essas duas funções?

Raoni: Isso tudo é natural pra mim. Se dirigir um show e não gravar, parece que o trabalho esta inacabado, falta algo. Vim do teatro. Depois aprendi a dirigir cinema. Uma coisa agrega a outra. Logo...

 

SOS: Quais shows do cenário internacional você destacaria em termos de direção artística?

Raoni: Os shows da Pink e da Beyoncé, as projeções mapeadas e a estética dos shows do Nine Inch Nails, Bruno Mars que usa a tecnologia a favor do artístico,  Justin Timberlake e U2 nem se fala.

 

SOS: Qual artista você gostaria de dirigir?

Raoni: Alguma diva internacional. O universo da mulher é fascinante. A mulher tem segredos e quando você consegue revelar é um sucesso. Mulher é poderosa. Beyoncé é uma super artista no palco e uma mulher comum na vida real. A mulher tem poder de sedução. Homens ficam fascinados, Gays ficam fascinados e as próprias mulheres ficam fascinadas também.

 

SOS: Sua produtora, a Ayó Filmes, tem um serviço de coaching para novos artistas. Como é esse trabalho? 

Raoni: Este serviço está disponível para qualquer artista que esteja disposto a trabalhar muito. A cantora Lexa é um exemplo. Pensamos em tudo que se refere à artista. Quem é essa pessoa no mercado, como ela entra em cena, que tipo de luz ajuda, a atitude dela em cena, o conceito de apresentação – e por aí vai.

 

SOS: Qual é o caminho que um profissional que gostaria de trabalhar com produção de shows no Brasil deve seguir? Existem cursos?

Raoni: Tem cursos específicos, mas produzir um show, criar, realizar ou até mesmo dirigir exige dedicação e estudo de todas as áreas que o show envolve: luz, figurino, maquiagem, som, produção musical, banda, ballet, conteúdos visuais, LEDs, tecnologias, etc. O mercado brasileiro ainda pensa assim: o empresário tem uma ideia e junta com a ideia do artista e contrata todos os competentes profissionais e fazem um show. Não é assim. Tem que ter uma figura para conceituar e criar harmonia no projeto e isso é função do diretor.

 

SOS: Que dicas você daria para diretores de shows menores, até em bares, que não tem à disposição todos os recursos que você costuma ter? Como eles podem criar um espetáculo melhor?

Raoni: A criatividade esta na cabeça de qualquer um que trabalha com arte. Pense na narrativa, no roteiro, na ambiência e planejamento, mesmo que o show seja pequeno. Acima de tudo, muito bom senso.